A Experiência Brasileira de Inovação Tecnológica na Agropecuária

Introdução

            O desempenho da agropecuária brasileira foi pouco dinâmico durante o período de 1970 a 1985. O padrão de expansão da produção dava-se pela incorporação de novas áreas na fronteira agrícola enquanto a produtividade por hectare mantinha-se praticamente estagnada na maior parte das culturas devido à queda da fertilidade natural dos solos.
            Na lógica do modelo de substituição de importações (1950/1988), a prioridade da política econômica estava voltada para induzir o desenvolvimento da indústria doméstica. Nesse contexto, à agricultura cabia dar sustentação à industrialização do país através da transferência de capital e trabalho do campo para o complexo urbano-industrial. Os principais instrumentos de política restringiam as exportações agrícolas, criando reserva de mercado de matéria-prima para a indústria. Além da política comercial, controles de preços garantiam comida barata e salários estáveis que facilitavam o desenvolvimento do setor industrial. Assim, o setor agropecuário sofria fortes obstáculos ao seu crescimento.


            Apesar de políticas setoriais compensatórias, como o crédito rural a taxas subsidiadas e a garantia de preços mínimos ao produtor, a produção de grãos dava sinais de estagnação. Assim desde o final dos anos 1970 recorreu-se com frequência a importações expressivas de grãos para assegurar o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, esgotava-se a fronteira agrícola tradicional, localizada nas regiões Sul e Sudeste do país.
            A ameaça do desabastecimento – diante do acelerado processo de urbanização e industrialização do país motivou a criação, em 1973, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresa estatal que promoveu a estruturação do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, com o objetivo de desenvolver tecnologias voltadas para o aumento de produtividade e fazer o país vencer a defasagem em relação aos níveis que prevaleciam em outros países produtores de grãos.
            Outro fato importante foi o desenvolvimento de tecnologias que viabilizaram a incorporação à produção de lavouras do cerrado brasileiro, região de solos planos, porém de baixa fertilidade e elevada acidez, até então vocacionada exclusivamente à pecuária. Essas terras eram bem mais baratas que as das regiões Sul e Sudeste e estimularam os investimentos nas explorações agropecuárias.
            Entretanto, a reforma macroeconômica e a abertura comercial dos anos 1990 foram primordiais para o grande salto no desempenho do setor. A estabilização econômica e a liberalização do comércio eliminaram os principais gargalos que impediam o crescimento da produção.
            A agropecuária se modernizou e, desde o início dos anos 2000, tem sido capaz de abastecer o crescente mercado interno e fortalecer sua posição competitiva na exportação de excedentes, situando o país como o maior exportador mundial de diversos produtos agrícolas e agroindustriais. Quando comparado a alguns países da América Latina (Argentina, Chile, México e Colômbia), entre 2001 e 2009, o Brasil foi o que apresentou a maior taxa de crescimento ao ano do valor bruto da produção agropecuária (4,5%). As taxas de crescimento dos outros países analisados, considerando o mesmo período, ficaram entre 2,2% (Chile) e 3,0% (Colômbia) (Fuglie, 2012). O resultado foi o aumento da participação do Brasil no valor bruto da produção agropecuária regional.
            A agricultura brasileira moderna, que emergiu no século XXI, é um setor competitivo e integrado ao mercado. O governo tem procurado incorporar os pequenos produtores no processo de crescimento. Tem se empenhado em facilitar seu acesso à terra. No entanto, o programa de Reforma Agrária no Brasil tem tido resultados frustrantes. A mera distribuição de terra não é suficiente para assegurar o aumento da produção e da renda no contexto da agricultura brasileira moderna e competitiva, que requer serviços de assistência técnica que o setor público não consegue prover em qualidade e quantidade. Ademais, a grande expansão da agricultura fez desaparecer os latifúndios improdutivos, reduzindo o estoque de terras passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária, segundo a legislação brasileira.
O objetivo deste texto é analisar os aspectos que contribuíram para que a agropecuária brasileira deixasse de ser um fator de gargalo para o crescimento da economia, passando a sustentar taxas elevadas de crescimento ao longo da última década.

            O texto está organizado em seis seções. Após a introdução, a segunda seção trata da evolução das políticas e o desempenho do setor. A terceira seção discute a importância da inovação tecnológica na agricultura brasileira. A quarta seção apresenta a estrutura da agricultura brasileira que resultou do avanço tecnológico no setor. A quinta seção analisa os limites ao crescimento da agricultura no Brasil. O texto se encerra com as considerações finais.

 
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