O Caos Logístico e o Prejuízo da Pesquisa e Produtores



Texto Completo

O coração da agricultura brasileira mais avançada sofre com o caos logístico que atinge justamente a fronteira da tecnologia agrícola do Brasil uma das melhores tecnologias do mundo. Nos estados da fronteira agrícola os custos logísticos extraem os benefícios do avanço tecnológico e da adoção da tecnologia pelos produtores. Tais são os casos de tecnologias de ponta no Brasil, como a soja tropical, agricultura de precisão, integração lavoura pecuária (ILP) e tantas outras tecnologias que o Brasil é líder na agricultura mundial. E não perde só o produtor, mas também toda sociedade que investiu em pesquisa em ciência e tecnologia (na Embrapa, por exemplo).

Sem infraestrutura é impossível desenhar e implementar intervenções logísticas minimamente eficientes para preservar os ganhos em rentabilidade da utilização de tecnologias na fronteira da Ciência. Sem infraestrutura e logística os fretes – e, na ponta, os portos – acabam, por extrair renda dos produtores, discriminando contra o agricultor, seu pioneirismo e empreendedorismo dos que foram desbravar os estados do Centro-Oeste com enormes sacrifícios humanos. Esses produtores foram recompensados pelo domínio da tecnologia nos Cerrados ¬– outrora considerados impróprios para o cultivo – supostamente um fator gerador de renda e bem-estar.
A falência da infraestrutura não só não contribui para a desvalorização da tecnologia dos Cerrados mas também extrai rentabilidade de quem é competente no campo.
Nas décadas de 1970 e 1980 a soja tropical, e o “milho safrinha” foram ocupando os municípios na “faixa de domínio” das grandes vias trocais da ocupação do Centro-Oeste – as estradas Cuiabá-Porto Velho (BR-364), Cuiabá-Santarém (BR-163) etc. Com o tempo a deterioração das estradas trouxe prejuízos aos produtores ao longo das vias de penetração da agropecuária.
Com o passar do tempo, à medida que as estradas foram piorando, os ganhos de produtividade foram sendo dissipados por fretes cada vez mais elevados e portos cada vez mais ineficientes. O Brasil foi erodindo suas vantagens comparativas – solo, clima, insolação – sem conseguir transformá-las em vantagens competitivas, transformação essa que só seria possível se tivéssemos baixos custos de fretes e de despesas portuárias. Para que vale o empenho do produtor em adotar tecnologia de ponta, se ele não se beneficia dos frutos de seu trabalho e se não é recompensado pelas decisões que envolvem riscos climáticos e de preços?
Os efeitos danosos dos custos de fretes e despesas portuárias têm sido atenuados pelos altos preços das commodities nos mercados internacionais e pelos preços altos dos alimentos no país, pressionados por forte expansão da demanda interna. Mas, mesmo assim, estamos dissipando todo valor adicionado ao longo de cadeias logísticas de escoamento de produção sempre muito precárias. Há excelentes condições nos mercados internos e externos – que poderiam contribuir para a expansão da capacidade produtiva do Brasil na agropecuária – e, no entanto, a infraestrutura ineficiente subtrai rentabilidade da adoção de tecnologia, distorcendo os incentivos econômicos para o avanço da produção e produtividade.
Nesse ponto perguntamos: para que serve a tecnologia se o que ela agrega de valor é dissipado nas cadeias logísticas? Ficamos entusiasmados com os avanços das pesquisas da Embrapa e não nos damos conta de que grande parte do valor que é gerado é desperdiçado. E quanto mais os produtores produzem com tecnologia de ponta, mais a renda e a lucratividade vão se dissipando na cadeia logística que tem toda a aparência de ser “extrativista”, ou por haver buracos onde a renda gerada no campo se perde.
A vantagem comparativa vai se erodindo na “cadeia do caos logístico”, não conseguindo o Brasil atingir vantagens competitivas, apesar da competência dos produtores, da Ciência e da Tecnologia.
É bem possível que não se possa falar que o Brasil é competitivo em produtos agrícolas. Somos exportadores de fretes caros e serviços portuários medíocres.

 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | free samples without surveys