A Escassez de Poder Político e Apoio das Bases e os Problemas da Agricultura do Brasil: O Que os Agricultores dos EUA e da Europa Têm Para Nos Ensinar?



Lead: A impressão que se tem é de que o número de problemas a resolver na agropecuária é inversamente proporcional ao poder político e ao poder de diálogo que o setor tem com a Sociedade. Há hoje cerca de 20 problemas mal resolvidos de acordo com os interesses do setor. Sem poder político e poder de diálogo com a sociedade o setor não vai muito longe. Como os produtores dos EUA e da Europa resolveram seus problemas? Por que lá os problemas são resolvidos e aqui são recorrentes?


Sumário Executivo

            A agricultura tem cerca de uma dúzia de problemas graves que nunca mereceram a devida atenção dos governos deste país. Há promessas, discursos, mas providências concretas, não há. Estes problemas drenam recursos da agricultura. Renda, capacidade de autofinanciamento etc. que tornam o setor cada vez mais vulnerável ao crédito rural.
            Por que a agricultura não consegue resolver seus problemas? Vamos à raiz dos problemas. A agricultura não tem “cacife político” para resolver seus problemas. Fizemos nesse documento uma relação dos problemas principais da agricultura brasileira para mostrar claramente o quando eles são recorrentes e quanto nunca tiveram solução satisfatória. E discutimos a origem de todos esses impasses com a hipótese de que, apesar da organização das lideranças agrícolas, os problemas são tantos, permanecem sem solução e se agravam com o tempo, que todo o capital, político, humano, intelectual e recursos financeiros dos órgãos de representação do setor comprometidos e consumidos com ações apenas defensivas. Os órgãos de classe perderam a capacidade de tomar iniciativas, pois muito fazem se conseguirem neutralizar tudo aquilo que se cria contra o setor.     
            Esse documento mostra um contraste muito grande entre o poder político da agricultura no Brasil, por um lado, e nos Estados Unidos e na Europa, por outro. Nesses dois últimos casos, os agricultores através do poder das bases e de suas formas de organização política construíram poder dissuasório. Poder de dissuadir quaisquer grupos de produção de insumos, de compra de produtos e dos órgãos do governo de antagonizar os interesses do setor agrícola. Nesses países não ocorre o que está acontecendo no Brasil. Quando todas as organizações, nos duros embates contra o executivo, órgãos e ministérios que antagonizam o poder da agricultura, mesmo somando capital político nos órgãos de classe e no congresso, os resultados finais são sempre muito modestos. A agricultura tem de “dar uma virada” na sua forma de organização política a partir das bases. Todo poder político da agricultura emana da base, dos produtores.
            A ideia transmitida pelas lideranças políticas e pela classe dirigente agrícola (Frente Parlamentar da Agrícola) de que têm muito poder político e de que podem resolver todos os problemas presta um desserviço à agricultura. Por que apesar de competentes não resolvem as questões pendentes e recorrentes.
            Está na hora de mudar o enfoque com base na experiência dos Estados Unidos e da Europa de que ou os agricultores - a partir da força da base - participam diretamente da luta pelos seus interesses ou a agricultura não tem seus pleitos aprovados. O sistema hoje é equivocado, pois os produtores olham para as lideranças como “salvadores da pátria”, capazes de resolver todos os problemas e isso não existe de acordo com o que este trabalho levanta como experiência nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil os agricultores “passam uma procuração” para os seus líderes e depois esquecem do principal problema que têm de enfrentar: de se organizar, “chegar junto”, lutar, dar legitimidade, criar poder dissuasório contra quaisquer grupos que os antagonize e, sobretudo, criar uma capacidade de se impor e manter com a sociedade um diálogo competente e duradouro. Apesar de a agricultura já ter feito muito pelo país, através da produção farta e barata, o setor não conseguiu capitalizar, na consciência da sociedade todos esses avanços.

 
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